A semana.
Chego em casa, já boto o calção pra lavar. Escrevo a reflexão do dia no papel, já que não tenho mais espertofone. Hoje, minha missão era procurar um celular bom, até 150 reais, no marketplace, mas não rolou.
Melhor assim. Sobra mais para o negócio.
A janta foi um copo de vitamina de abacate. Amanhã tem Champions. Sem lab exclusivo para assistir, a dica é tentar no shopping. Pode ser que passe na TV. É isso, ou ir praqueles labs ridículos que fecham pra dar aula.
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| FA chega em casa, primeiro dia sem sedanet. Perdi um pen-drive na xerox. Falta pagar o boleto da apostila e comprar a Igloo. |
Quais gastos faltam fazer? Concurso, imprimir a apostila, marmitinha de vidro e potes plásticos, óleo de coco e algodão. Para o negócio, peneira, funil, depósitos, saquinhos. Eu tenho 460,00.
Quando você vai botar alguma coisa pra vender como ambulante, deve primeiro planejar a questão do almoço. Experiência. No meu caso, eu poderia pagar a passagem pra almoçar no RU. Ou largar de 10:30 pra pegar o metrô e almoçar no RU, economizando. Ou, ainda, fazer o meu próprio almoço e esquentar no microondas, indo e voltando de bicicleta. São opções. Levar assim até passar a prova do concurso.
Mas eu desisti do concurso. Explico.
Mas eu desisti do concurso. Explico.
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| FA larga medicina para trabalhar. |
Não se trata de fazer um sacrifício para se formar neste curso, apesar das dificuldade. Eu quero mais do que medicina. Quero viver a vida universitária™.
Nesta quarta, eu comprei um celular pebinha, por $180,00. Com esse dinheiro, eu poderia ter pago a inscrição do concurso, imprimido a apostila, comprado o óleo de coco e ainda sobrava. Mas ele me rende bons momentos (como acompanhar a thread da vitória dos Spurs). Único apoio para não enlouquecer de vez.
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| A princípio, achei ter sido outro erro, ter comprado um celular peba. Mas não. Ele tá me servindo sedanet, e momentos de escape, apesar de suas configurações serem meio limitadas. |
O celular só tem isso. Um navegador para o channel, o whatsapp para falar com a família. Sem entrada para fone, sem música, sem rádio, sem filmes.
Pra falar a verdade, ainda tenho arrependimento de ter vendido o android. Mas irei recuperá-lo. Não vou mais fazer o concurso, apesar de ter comprado a apostila digital. Por que não vou mais fazer o concurso? Se eu gastar mais dinheiro para imprimir a apostila e pagar a inscrição, vou ficar sem emocional para estudar.
Como eu já disse, o problema não é não ter o que comer. É não ter o que comer porque não tem dinheiro. Estou com dinheiro na conta e fazendo uma refeição por dia, e totalmente ok com isso.
Eu vou recuperar o android. Fazer um trade de dez reais por dia, até juntar mil reais. Almoçar é uma refeição por dia, no RU. Sábados e domingos, à custo subsidiado. Legumes à vontade, batata, cenoura, beterraba. E suco de limão.
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| Eu chamo isso de protocolo cem. |
Quinta-feita estabeleci a nova rotina. Pegar o metrô, almoçar no RU e voltar pra casa. Ficar mexendo no celular. Falarei de algumas reflexões.
Tem um trecho a pé, meio no sol quente, se for pro RU de metrô. Vejo necessitados vendendo pipoca no calorão de rachar, pros carros que paravam no semáforo. Entro pro RU, vejo boys barbichas, e beckys de apartamento. Dois mundos opostos.
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| Eu vejo dois mundos. O de quem mora em condomínio, dirige carro e usufrui do prestígio de cursos bem quistos. E o mundo de quem precisa matar cachorro a grito, no sol quente, por migalhas. |
Se eu não arrumar emprego, poderei continuar cursando med, mesmo na pindaíba. Teria que fazer uma correção estética primeiro, para ter o mínimo de social, a bem da verdade. Mas posso relevar.
É possível se manter no curso, apenas vendendo confeitaria à preço honesto. A noite, claro, com lousa chalkboard e cavelete.
Mas primeiro, o protocolo cem.
Dia seguinte, manhã. Biscoitos rosquinhas para enganar, no café da manhã.
Tia apareceu no cantarolando no quintal. Satisfeitos por eu não estar mais indo para a aula? Talvez. Bom seria morar sozinho. Mais privacidade.
Falarei agora do concurso.
Eu quase desanimei de concurso municipal, por causa das maracutaias e nepotismo brasileiro. Procurei relatos de pessoas que passaram e foram convocadas. Ainda há razões para acreditar. Claro, mesmo assim é melhor focar nos certames de muitas vagas e de cargos nível fundamental. Provavelmente ASG.
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| O salário não é muito diferente de assistente administrativo. Só não tem pompa. E depois, pode ser complementado vendendo algo a noite. |
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| Apenas um carro, uma grana para começar e posso fazer 8k por mês garantido. |
No caminho, fiz uma reflexão, pois gosto de espairecer. A sociedade é quase uma distopia cyber-punk. Como aquele filme "Jogador n° 01". Pessoas que moram em favelas, amontoados, sem o mínimo para comer, nem qualidade de lazer. Mas possuem acesso à tecnologia de ponta. Alguma similaridade com os smartphones. Só faltam os prédios gigantes e anúncios neon.
Nessa pobreza, as pessoas sempre procuram um escape mental.
Esse celular, que estou agora, demora para carregar. Tenho que esperar. Boto pra carregar na outra casa, e deito na rede. O barraco aqui está no escuro. A tia deve ter tirado o puxadinho da tomada (porque tá apertado pra comer lá, quer descontar).
Tem um colégio aqui perto, onde grupos de quadrilha junina ensaiam de noite, mesmo quando não tá na época. Ouço as músicas da Brucelose. Eu gosto de forró das antigas, etc. Gosto demais. Algumas me trazem boas lembranças, não sei bem o que é, mas remete à infância.
Nesse sentido, gosto de observar a sociedade e os seus escapes. Por isso minha simpatia por casa dois andares, com varanda. Eu queria morar numa.
Vejo que seria feliz com pouco. Ao menos, morar numa casa azulejada, quarto, cozinha, e banheiro. Mesmo um subemprego de ASG, eu seria grato.
A vida terrena é uma constante busca por escape mental. Quem entende e aceita isso, de coração, de alguma forma está sempre levemente entorpecido.
Abraço do Futuro Alfa, em protocolo cem.
Até a próxima.












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