
E a esperança de dias melhores ♫
A criatividade está nas ruas.
Percebo isso quando fico em casa, pela noite, vazio de ideias. Mas basta uma saída noturna para borbulhar de vastas emoções e de pensamentos imperfeitos. "A vida está nas ruas" (Go, Nick Farewell), e "já reparou que os prazeres físicos são os que mais dão satisfação de espírito? Caminhar, comer..." (citação de algum livro de Rubem Fonseca). É por isso que, certas vezes, saio de casa à noite para comprar pão, ainda que eu saiba que precise, no momento, economizar ao máximo. E também um bolo de macaxeira e um sonho. É uma tentação de burguesar, mas tem sido também uma terapia, pois estou às margens de perder a mínima dignidade.
A bolsa CNPQ que pretendia pegar em 2018, está correndo risco de não dar certo como eu imaginei. Fiz a inscrição antecipada agora, e no site está dando erro.
Enviei um email para a coordenação perguntando o que pode estar acontecendo. Sei que eu fui indicado para essa bolsa em 2015, mas por não comparecer aos encontros presenciais, ela me foi cancelada. Ainda assim eu peguei uma das parcelas, de 400 reais.
É bem chato ter que recorrer à esse tipo de condição imposta, quando o correto é que a Bolsa Permanência continuasse em vigor. Verba sei que não falta.
É provável que, por já ter participado uma vez da CNPQ não poderei mais pleitear minha inscrição. Se acontecer essa possibilidade, não sei...
Este é o principal motivo d'eu estar desanimando com o curso de medicina. Passar esse primeiro período, como já falei, noutro post, indo e voltando para um barraco de moradia, sem estar ao menos recebendo para isso, será deveras revoltante.

É aí que entra contexto para meu pequeno hábito. Saio fim de tarde para comprar pão, um pequeno ato burguês, o último que resta para não perder a dignidade. E isto me faz pensar.
Primeiro, espírito livre, imagino o futuro, quando eu, pós-formado, empregado e ganhando dinheiro, poderei me dedicar à burguesar de forma plena e sem limites. Sem preocupações de se o dinheiro pode faltar pra isso ou aquilo outro. E eu já falei isso aqui, outra vez.
"É muito fácil perder a vergonha de se expor quando se é privado de tudo" A confraria dos espadas
Segundo, me deixo espiar outros moradores desta rua, e eles me parecem mais compenetrados em suas próprias realidades (embora essa necessidade imunda de ficar socado nas calçadas em frente às suas casa, eles parecem não estar saboreando flagrar minha situação específica, até aí beleza). Clã ali do Cipriano estão conversando entre eles, o Cipriano mesmo está olhando a rua de cima, deitado numa rede, na varanda do alto de um segundo andar. Cobrinha se balançando numa cadeira, olha a própria pança cheia de merda. Respectivamente estes são os dois mais boçais. Outro zé ali que eu não lembro, vejam quem diria?, dono de uma pequena budeguinha mal feita na entrada de sua casa, sentando num banco de madeira pequeno (quem sabe vem um cliente) enquanto assiste o Datena, (a T|V lá dentro de casa, noutro cômodo). Perfeito.
Também me ponho a observar as pessoas, os trausentes. Figuras da sociedade. E é aí que vejo: eu não preciso de muito. Pelo menos, não tanto status e dinheiro, como médico.
Vejo o zé ali que é vigia noturno de um colégio municipal. Eu ficaria feliz com um cargo público desses: de baixo escalão, de milão, estável e com uma tamanha simplicidade: só pernoitar na guarita, numa escala de 72.
Se fosse numa cidadezinha, então, melhor ainda. Longe das cobranças da cidade grande, preços superfaturados, trânsito complicado. Teria tudo que eu preciso para um modo rica mestre: albuns nacional e internacional anos 80, explorar livros usados em sebos, internet (óbvio) à espera de que lancem um anime mais da hora, tipo HxH, e um quarto ou kitnet alugada numa pensão, com segundo andar, para escrever minhas fanfics ou praticar xadrez na varanda, ou mesmo acordar de 4 da matina para olhar as estrelas. Tudo isso com pouco mais de milão ─ foda-se mulheres, foda-se os alfas, foda-se a sociedade.

Sim, sei que, com milão, não dá para aportar para uma previdência, foi só um exemplo que dei.
Mas, se eu tivesse a passagem e um pé de meia agora, largaria medicina e me inscreveria no concurso de admissão à Marinha, que saiu agora, até dia 06 de março. Pena que não tenho dinheiro pra isso.
Vida beta que segue.
Terceira parada no passeio. Vejo a trupe dos antigos e aceitos e planejo voltar entre eles, para pregar uma peça, isso lá pelo quarto ano, quando tiver mais poder social é claro. Inclusive eu quero relatar essa experiência aqui no blog, fazendo um paralelo de como eu era tratado, ômega rejeitado, quase um leproso social, e como passará a ser o tratamento quando eu revelar que já estou quase me formando em medicina. Vocês vão ver a prova real mais uma vez do pensamento da real pobretana. Por hora, todas os perfis em redes sociais, mantenho em "only me" e não deixo vazar pistas, caso algumas "moças de família" queiram stalkear o meu instarrola e derivados.
Enfim, concluo, por meio dessa reflexão, que saio à noite fim de tarde, para sair por um instante dessa realidade triste, medíocre, de pobreza, miséria e zero dignidade que não desejo para ninguém. Nas ruas, espaireço das dificuldades. Me alimento dia após dia, noite após noite, da esperança de que um dia tudo isso irá melhorar, quem sabe. E sei que a sociedade não se importa, não está nem aí. Na verdade, ela saboreia, sei que ela gosta, como que motivada por comparação social que a faz se sentir superior, quando, por exemplo, um mendigo vem a pedir uma moedinha e eles fazem cara de nojo, dizem para arrumar um emprego, arrumar uns bicos, querendo que o marginalizado pela sociedade saia logo dali. Me refiro ao pequeno comerciante, à classe média emergente que está mais perto dos pobres do que da elite e pensa que é patrão. Eles sim, tem como ajudar mas não fazem. Como se fosse fácil "arrumar um emprego", "arrumar uns bicos", essa solução mágica. Infelizmente, a desigualdade existe pela dureza de coração dos homens, não pelo capitalismo. E essa roda deve continuar a girar.
Abraço do Futuro Alfa








