Segundo os meus cálculos, estou obtendo um lucro líquido de vinte e dois centavos por gelinho vendido. Metade da previsão que eu havia estipulado antes, de quarenta centavos ─ sendo otimista ─ e ainda abaixo do que se poderia dizer regular, que é trinta centavos. Com o fantasma da inflação assombrando as prateleiras, essa perspectiva pode vir a ser pior. Cada aumento de impostos que o governo feladaputa impõe aos empresários, eles repassam para o consumidor. Por exemplo, foi só o diesel ter um reajuste de 8% para o preço do abacate aqui subir de 2,5 para 10 reais o quilo!
Porém, com algumas pequenas peripécias, acredito que eu consigo elevar o lucro para vinte nove, trinta centavos, o que seria aceitável. Assim, supondo uma saída de vendas de cinquenta gelinhos por dia ─ e ainda pegando leve ─ eu teria entre trezentos e quatrocentos reais por mês. O mínimo aceitável para aportar até março de 2017. É claro, descontando meus gastos fixos, a internet móvel e almoço no bandejão, que dão, precisamente 60 reais por mês. Eu bem poderia cortar a internet, mas não consigo eliminar esse extremo sensorial recreativo lixo que tem sido meu escapismo ─ o único aliás, para não gastar mais. Essa é a realidade de JPBF beta mental com o pouco de dignidade que é de direito.
Estou fazendo cada concessão nas metas, mas acredito que 0,7~1k até o primeiro dia de aula (considerando que eu passe em medicina) já me deixam com uma sobrevida no curso, na esperança de pegar uma bolsa-auxílio da faculdade, ou qualquer outra que seja. Mesmo nesse cenário, vale dizer, ainda não tenho tudo sob controle porque a mãe anda pensando em viajar para Fortaleza, onde sugaria a aposentadoria da avó. Em outra discussão que tivemos, disse para ela ir pra Fortaleza e depositar o dinheiro do aluguel, pelo menos, na minha conta poupança, assim que tomasse conta da aposentadoria da avó, mas também achou ruim. Depois tive a ideia de dividir o aluguel com alguém do curso, pois sabemos que muita gente vem de outros estados para estudar medicina nas capitais do nordeste, mas isso não vai rolar.
Eu acho que é o caso de arrumar um subemprego e acredito que isso seria oportuno. É claro, eu teria agora apenas dois meses de salário nessa alternativa, fora o tempo de espalhar currículo e torcer para ser chamado ─ o que é outra perda de tempo. Fico pensando como é bom ser filho planejado de pais poderosos e influentes, ou judeus classe média, onde basta uma ligada para um contato amigo de uma das empresas, para indicar um emprego de recepcionista só pró-forma pro filho de fulano. Aí em dois tempos eu estaria trabalhando de roupa social, todo aprumado, e sendo intocável dentro do ambiente de trabalho, sem cobranças, sem horários e sem chateações de patrão chato. Um delicioso cargo no maior Q.I la famiglia como é de banca da classe alta, só para dizer que tem o próprio salário.
Mas logo a realidade bate a porta e eu sou obrigado a pousar de novo no chão, aceitar a realidade medíocre de ter nascido numa família de pais fracassados e chimpas, que mais fazem cobrar dos filhos para que arrumem trampo, sendo que o momento agora é de dar-lhes apoio nos estudos, a fim de terem uma carreira decente no futuro.
Enfim, se por um lado, hipoteticamente eu teria uma vantagem a mais com o salário-mínimo garantido no fim do mês, eu teria também a desvantagem de voltar a cumprir horários e obedecer chefe-tetinha ─ ou chefe mulher, que é duas vezes pior do que tetinhas. Mulheres no comando costumam ser mandonas e complexadas, não raro inferiorizando seus funcionários para se sentir “alta sociedade por cima da ralé”. De qualquer jeito, acordar a hora que quiser, fazer o próprio faturamento e ter tempo para si mesmo é uma liberdade que pesa na hora da escolha. E, depois, de 400 para 750 não é muito, sendo que com mais trabalho e persistência é possível diminuir ainda mais essa diferença.
Portanto, não. Não deveria pensar em arrumar subemprego, logo agora. Com doze milhões de desempregados, e até estudante de direito se estapeando por vaga de repositor de supermercado ─ como pude comprovar certa vez, numa dinâmica escrota inventada por RH inútil, numa seletiva aí de hiper-papelaria ─ eu só perderia mais tempo e passaria por avaliações humilhantes de recepcionistas que recebem ali seu currículo com uma cara de cu, e dizendo “sim, se aparecer uma vaga a gente liga”, sendo que mal você dás as costas, elas amassam e jogam seu papel no lixo. Sem falar que é mais provável elas mesmas darem indicação de conhecidas e conhecidos para preencher as vagas que aparecem, o famoso “quem ta dentro puxa o outro”.
Também lembro de uma entrevista, certa vez, que fiz no McDonalds, e depois de duas horas de espera, o gerente tetinha (uau, que surpresa) acabou escolhendo uma merdalher loira que era a menos feia para ocupar a vaga (atendente, com rodízios de funções). Ou seja, tem isso também ─ a manginagem dos gerentes tetinhas. Esses gordos adoram se rodear de mulher quando estão numa posição de poder, só para se sentirem mais machos. Outros colocam mulheres para aquela vaga de “assistente administrativo” também para se sentirem servidos por uma mulher, e, com isso, se sentirem mais “alfas”. Não tem jeito, o pobre JPBF ômega comum, nasceu numa sinuca de bico em que, para todo lado que olhe, só tenha obstáculos e concorrentes diretos com mais barganha físico-estética-xerética para roubar sua possível vaga no mercado de trabalho ou subemprego. Assim, ele se vê acuado. Ou se mata ou vai ter que lutar com suas próprias forças 10x mais, procurando meios de escapar do destino quase certo de fracasso e vida medíocre.
Incertezas tem resumido essa angústia pré-Sisu em janeiro, mas sigo em frente pois é o que há. Forte abraço. Até a próxima.
Nenhum comentário:
Postar um comentário