domingo, 23 de setembro de 2018

Série rotina zero - parte 3: primeira companhia

Fazendo um apanhado do post passado, contei que mesmo sendo um filho exemplar, estudioso e com ideias de empreendedorismo, eu também era aporrinhado dentro de casa, se ficasse muito tempo deitado no sofá mexendo no celular. Uma pressão velada, comum em famílias pobres. Inclusive, mesmo hoje, meu irmão continua sendo cobrado para deixar currículo, e arrumar subemprego, lá na capital. Ainda mais por estar fazendo um curso pega-trouxa de administração (250,00 + passagens), apesar d'eu ter dito para cancelar. Ora, sabemos que no Brasil é só Q.I.

Continuemos.

Na semana zero, tínhamos instruções de ordem unida pela manhã, sendo liberados antes do almoço. Um dos cabos me reconheceu (jogávamos bola na mesma rua, na infância), e foi chegando:

- Tu queria servir, FA?
- Não - omiti que, na verdade, eu já estava interessado no soldo, à essa altura.
- Pois tenho uma notícia: você já está servindo, rs! Mas, ô, se preocupa não, um ano passa rápido.

Fui alocado numa companhia que, segundo o sargento, era menos sugada, que na maior parte do tempo, íamos ficar na "felpa", ou seja, à toa. Meu canga era o 109x (dez, noventa alguma coisa), um paulista de sotaque característico, pró-ativo. Mas durante a cautela dos coturnos, gandolas, me aborreci e discuti com o sargento, então fui realocado para a primeira companhia.
Quando passei carregando meus materiais para o outro alojamento, ouvi o sotaque do paulista:

- esse aí se fu-dê-o, mêo.

Errado. Já sociopata, nessa época, eu consigo entrar em modo zumbi em períodos que exigem resiliência, como esse e, depois, o campo de cinco dias. Não tava dando uma foda solteira para a rage do sargento. 

A formação na primeira era em pé, no sol. Os soldados engajados (bravo) ficavam tirando onda dos novos recrutas, dizendo "esse é raro", imitando gritinhos, etc. Eu estava só de corpo-presente. O tenente, um playboy físico 1,85m, cara de 18 anos, chegou botando ordem:
- vou dar o nome e número, e liberar os senhores "fulano, 972, ciclano, 973, beltrano, 974..." 

Isso com uma fala rápida, que metade não gravou. Depois, fez a chamada, o recruta toma posição de sentido, levanta mão esquerda (ou direita, sei lá) e grita o nome.

- 941. 9-4-1! Alfa, bizonho! Tá me devendo!
- 952. 9-5-2! Diabo, é tú, monstro! Bizarro! Tá devendo!

E sem falar nos raros que respondiam no número errado.

- 931, 946, 952, 964, 968, 970... - olhando pros recrutas - deixa eu gravar o rosto desses bizonhos. Já começam a semana devendo. Alguma dúvida?

Era uma sexta-feira. De lá eu tomei ônibus para a cidade, para pegar o metrô. Entrei numa farmácia como estava, cuca raspada e coturnos debaixo do braço, não lembro o porquê. Ouvi um coroa grilando "xii, se fudeo". Ignorei. 

Em casa, já tracei um plano para acumular o soldo do EV. Objetivo: acumular mais de 5k até a baixa. Isso porque me permiti algumas aquisições, para suportar o besteirol do exército. Um netbook, e um smartphone. O smartphone foi no intuito de assistir séries, filmes, animes, ouvir música, bater uma massa. Mas nessa época, eu já andava analisando PDFs de conhecimento útil, revirando fóruns e o Persuasão. Só comprei o MasterAtração do Rafael BC, no entanto, depois que dei baixa.
Já organizava minhas despesas em tabelas. O gráfico mostra que dei baixa com menos do que 4k, que era a meta. As bibocas foram um fracasso, até porque fiquei dividido entre empreender e medicina.  

Dei o nome à essa fase de "rotina zero", por estar recebendo dinheiro, mas sem tempo para investir em bibocas, pelo tempo tomado no EB e dias de serviço. Então me ocupava de entretenimento. Assistir séries, filmes, escrever fanfics, etc. As noites de serviço eram tempo para profundas mentalizações sobre a rotina empreendedora a ser implementada. Tive ideia de alugar uma kitnet próximo ao batalhão, em segredo, pagar com o bônus das passagens e vender bolo com suco à noite em algum ponto movimentado, mas não foi pra frente.
Realizo que errei muito com esse dinheiro. O blog serviu para amadurecer. Poderia estar muito melhor se tivesse, naquela época, a mesma mentalidade que tenho hoje.
Enfim, foi o primeiro emprego e primeiro salário recebido em 19 anos. De cara, meu primeiro saque no BH24h e minha família teve orgulho de mim. E eu já não era mais aporrinhado para fazer tarefas, quando ficava em casa, fins de semana. Como são as coisas.

No próximo post, contarei o dia a dia do internato, e como foi o campo, dois meses depois do período básico.

Abraço do Futuro Alfa,
Até a próxima.

3 comentários:

  1. FA, tu chegou à cogitar seguir carreira nas forças armadas ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, mas como marinheiro ou grumete, no máximo taifeiro. Não para fazer curso sugado, tipo para aspirante, mas se entrar como oficial (médico/enfermeiro/profissões) tá valendo.

      Excluir
  2. hahaha excelente post brother. Poxa, essas histórias são fodas. Quanto mais merda passamos, mais resiliente (palavra da moda) ficamos. E no exército isso é muito facil! hahaha

    ResponderExcluir