O grande problema da falta de renda para um formando de medicina pobretão

Eu já tinha esse costume de espairecer um pouco os pensamentos observando a rua, costume herdado do antigo trabalho que eu tinha de vigilante, e que, madrugadas frias adentro/afora, foram traçados inúmeros planos de bibocagem imunda que me renderiam altas somas de lucro, coisa que já falei por aqui, mas não deu muito certo. Só que na época, o sonho era forte. Agora, o que sobrou foram dois fardos de potes plásticos largados em cima do armário, o carrinho adesivado que me custou uma fortuna, e agora empoeira no canto da sala, e uma caixa de leite condensando e outra de farinha láctea. Coisas que vendo-as pela casa, me bate o arrependimento de que se eu botasse tudo na poupança eu teria 70 conto de juros todo mês e uma tranquilidade financeira legal agora. Fazer o quê? A caixa de leite condensado e farinha vou tentar passar para algum desses ambulantes de rua, e o carrinho vou anunciar no mercado livre (é foda, porque eu não conheço nada de como é o esquema das transportadoras, mas vale a tentativa).
O segundo plano para não ver minhas parcas reservas se acabarem era vender din-din esporadicamente em alguns locais, só para manter os gastos fixos sem mexer no montante. Como eu tenho pouco agora, não raro há a preocupação de manter a conservação de meus passivos, devices e a bicicleta como meio de transporte ─ coisa que antes, com os dez mil, eu ficava mais tranquilo sabendo que poderia comprar outra novinha. Assim, se houvesse algum imprevisto a mais eu poderia contar de acumular um pouco de lucro dos geladinhos para cobrir o gasto a mais. Agora que a energia foi cortada, nem isso mais (se bem que eu poderia fazer, em último caso, alocando a geladeira de algum parente, mas nunca é boa ideia porque sempre vão querer pegar uns).
Plano C ─ concurso público, em devo dizer, antes que dou preferência por empregos burocráticos, ar condicionado, sentado, algum falso status que seja (por exemplo, aquelas aprendizes da Caixa que ficam organizando a fila da senha do banco) essas coisas, pra descontar a mamada do Estado nos nossos impostos. Abomino trabalho de repositor de supermercado ─ qualquer dia eu digo o porquê. Mesmo assim, para arrumar um emprego nessas condições, envolve muito quem indica, para saber onde abriram vagas e os esquemas para passar por quem coloca-os lá dentro, coisa que é difícil para JPBFs pois somos reservados e não costumamos nos expor muito. Então, resta o concurso público, que para mim, deve ser com total isenção da taxa de inscrição (nem sei se isso rola ainda) e pelas proximidades, ainda que não descarte o trabalho noutra cidade. O problema é o tempo para ser chamado, sendo que, dentro de quatro a seis meses, começa o curso na universidade, se eu não tiver começado a trabalhar dentro desse prazo, não vale nem a pena.
É devido à estes fatores que estou induzido agora a apertar o cinto e controlar os gastos à conta gotas. Tenho o suficiente para permanecer daqui até dez meses (almoçando em bandejão, + quase-jejum finais de semana), sendo que antes disso começam as aulas e eu vou tentar uma bolsa na graduação. Faltam menos de 200 dias, estou contando esse prazo dia a dia, para ver as condições melhorarem enfim. Minha primeira opção que estou de olho é a do PICME, por que tenho direito, mas já fui desligado dela uma vez, espero que isso não pese contra agora. A segunda opção é uma bolsa normal tutoria/monitoria qualquer, e espero que nada conspire contra, e que possamos consegui-la enfim. Estamos todos contando com isso.
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