terça-feira, 20 de setembro de 2016

O ritual JPBF de contemplar a sociedade opressora


Pode ser que se pergunte acerca das razões que me fizeram vir aqui no ponto de ônibus, espairecer, refletir olhando o movimento da rua numa noite qualquer, semelhante turba de vizinhos perifentos que se colocam nas calçadas, a frente de suas casas, como se quisessem vigiar a vida uns dos outros. Não, o motivo evidente é o derrotismo que se apresenta o ambiente caseiro familiar (agora sem luz elétrica). Não se pode negar essa máxima de que muitos negos vão olhar a rua para esquecerem por um momento as suas realidades medíocres. Mas vamos colocar um adendo, sem negar este. Como já vimos, há pessoas de classes B e C emergentes também que se postam sentadas na frente de suas casas, aqui, no entanto, casas de verdade, na dignidade da palavra, não barracos sem reboco de periferia. Um grupo formado em sua maioria por aposentados e donas de casa, gente que passa maior tempo dentro de casa, provavelmente enjoados de olhar para as paredes. Parece sugerir que observar a rua é um costume tradicional bostileiro, não sei como é a realidade lá fora. Se for, porém, deve ser com mais elegância, pedigree e sem, er.. esse ar de inveja e complexo que você sente no Bostil ─ sim, pois aqui ninguém quer ver o outro por cima dele, motivo pelo qual não contamos nossos projetos a ninguém, a fim de não ouvir sabotagens.

Dito isto, retomemos o raciocínio. Eu dizia que iria colocar acima desta verdade anteriormente elocubrada, uma outra razão. Meio a meio, o que, vez ou outra, me leva ao ponto de ônibus aqui perto, olhar as pessoas, a rua, a sociedade decadente é um ritual de absorver inspiração como faz um escritor, exceto pelo ato de conversar com elas (escritor), eu só observo. Também me ajuda a colocar os pensamentos em ordem, para não perder o foco de meus objetivos. Assim, olhando essa periferia decadente, essas ruas brasileiras de asfalto esburacado, sem planejamento, que ganha pintada de cal em épocas de eleição, chimpas passando, vadias mirins passando (ali vai descendo um chimpa para a academia fuleira, levando água na garrafa gatorade e depois, se já não tomou, um whey lixo quando chegar em casa), eu meio que sinto o jogo da vida, onde, por você nascer numa família chimpa miserável, haverá muitas dificuldades que terão de serem superadas para romper as paredes sociais e viver no rol da classe A, B+, mesmo que nem tenha certeza se os déficits colocados desde o início possam ser apagados, o mínimo de conforto e tranquilidade financeira deve ser buscado. Aí você vê, então, que a realidade parece coisa de filme, e se sente parte de uma história. Mas você não é especial.

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