quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A angústia de vacas magras


Sonhos de burguesia.

Verifico no calendário que ainda tem uns três, ou quatro meses até o início das aulas.

Estou com somente cerca de 50 reais. É dureza dizer que mesmo fazendo uma refeição por dia, à um real, não sei o que vai ser depois de esgotar minhas economias. E nem o dinheiro para o jaleco eu tenho, por hora. 

O que devo fazer? Mendigar de casa em casa? A sociedade sempre foi difícil de lidar. Negos que tem condições são os primeiros a ignorar quem pede uma ajuda.

Quando começar as aulas vai aparecer um edital para a bolsa alimentação no início do semestre. E eles vão demorar de dois a três meses para regularizar a situação dos selecionados. Para ser selecionado, tem que cumprir os requisitos: aulas em turnos conseguintes (confere) e renda per capita menor ou igual à um salário mínimo (confere).

Não sei se vou ter o jantar também. 

Seria bacana, essa experiência de RU universitário — sempre achei legal, quando via de fora. O problema é que talvez o jantar seja apenas para quem vai ter atividades no turno noturno, e isso é só para bolsistas, residentes e monitoria (e para quem pode comprar créditos).

Se não tivessem cancelado a bolsa permanência, que praticamente só seleciona alunos de medicina (com maior carga horária) eu já estaria "ok" para participar de churras, de calouradas, do EREM, do OREM e ficaria tranquilo quanto ao problema da alimentação. Maldito Mendonça Filho, lixo, gastão de dinheiro público e mamador de milhões de benésses. Enfim, esse país precisa mesmo é de uma revolução armada, mas o sistema mantém a população entretida, estrogenizada e submissa, para que não se revoltem. 

Uma das soluções é: sair da universidade e ir almoçar no bandejão, no período que estão fazendo a análise da solicitação do auxílio alimentação. Obviamente isso implica manter o cabelo curto (corte mensal) para não chegar descabelado e suado na aula.

Enfim, é muito desanimador e detona a auto-estima o cara não ter nem o que comer quando chega em casa, sendo que não pode gastar o dinheiro pra não faltar na semana seguinte. Sinto que se forma em meu psicológico uma certa apatia. 


Eu vejo emergentes em lanchonetes, shopping, posto de gasolina, e imagino o dia em que for burguês. Quero poder entra em qualquer loja, comprar e comer o que quiser sem nem se preocupar com preços, com a conta... De fato, todas as revoluções se deram por um pouco mais de comida (op. cit O cobrador, Rubem Fonseca). No momento, é fácil entrar em parafuso vendo tanto emergente (emergente mesmo, nem playboy precisa ser) nessa modinha de fitness, suplementando e se alimentando de macro e micro nutrientes com força. Enquanto que esse déficit alimentício meu pode perdurar pelos próximos seis anos. Ossos finos, braços finos, talvez não consigam um bom desenvolvimento depois dos trinta, ainda que tenha recursos.

Mas acredito que o jogo social não se aplica a mim, de qualquer jeito, visto que conheço minhas características betísticas e a pouca barganha que tenho. Sendo assim, sublimei esse desejo, e o que me importa mesmo agora é tão somente burguesar. Só isso.

Enfim, essas foram as considerações que tinha para fazer hoje. 


Abraço do Futuro Alfa

Um comentário:

  1. Seu relato me lembro quando estava estudando para concursos e vivia na pindaíba fodida.

    "me vi numa situação que não conhecia, contar os centavos para comprar pão, pagar passagem para ir panfletar currículos, pagar aluguel etc.."

    Relatei nesse post: http://investidorconcursado.blogspot.com/2018/04/nao-e-uma-vida-ruim-apenas-um-momento.html

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